Fora do topo do ranking, Tocantins ainda enfrenta realidade persistente de conflitos no campo

Mesmo fora do topo do ranking, o Tocantins segue inserido no mapa dos conflitos agrários do Brasil, refletindo uma realidade que ainda desafia políticas públicas e a garantia de direitos no campo
4688f14c0cd0e4a368ab834357ff86a2
Despejo do Acampamento Chico Mendes durante operação policial em 1º de julho de 2005, em Pernambuco. Trabalhadores foram retirados à força e tiveram casas destruídas. Foto: Dayse Porto

O Tocantins registrou 50 conflitos no campo em 2024, segundo dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Embora não figure entre os estados com maior número de ocorrências, o estado permanece inserido no cenário nacional de disputas agrárias, que somou 2.185 registros em todo o Brasil no período.

O Brasil atravessa um dos períodos mais críticos em relação aos conflitos no campo. Em 2024, foram contabilizadas 2.185 ocorrências envolvendo disputas por terra, água e relações de trabalho. O número representa o segundo maior já registrado desde o início da série histórica, iniciada em 1985.

A distribuição dos conflitos revela um padrão que se repete ao longo dos anos. As regiões Norte e Nordeste concentram a maior parte dos casos, impulsionadas pela expansão da fronteira agrícola, pela disputa fundiária e pela pressão sobre territórios tradicionais. Estados como Maranhão, Pará e Bahia lideram o ranking nacional e acumulam os maiores volumes de ocorrências.

No Tocantins, foram registrados 50 conflitos ao longo de 2024. A maior parte dos casos está relacionada a disputas por terra, que somam 48 ocorrências. Também foram identificados conflitos ligados a relações de trabalho, incluindo situações análogas à escravidão.

Os impactos desses conflitos atingiram diretamente 16.451 pessoas no estado, envolvendo milhares de famílias em áreas rurais. Mesmo sem figurar entre os estados com maior número absoluto de registros, os dados mostram que o Tocantins continua inserido em um contexto de tensão no campo.

Os grupos mais afetados seguem sendo povos indígenas, comunidades quilombolas e trabalhadores rurais. Em muitos casos, as disputas envolvem áreas tradicionalmente ocupadas por essas populações e que passaram a ser alvo de interesse econômico.

A violência no campo também permanece como um elemento preocupante. Em 2024, o número de assassinatos no país foi menor do que em anos anteriores, mas outras formas de violência continuam presentes, como ameaças e tentativas de homicídio, principalmente nas regiões com maior concentração de conflitos.

6fb34bf8b64e06e70f25d82438e3c26a
Área do acampamento após a ação do Batalhão de Choque, com relatos de plantações queimadas e acesso restrito à imprensa e entidades. Foto: Dayse Porto

Localizado em uma área de transição entre o Cerrado e a Amazônia, o Tocantins enfrenta pressões típicas de regiões de expansão agrícola. O avanço da agropecuária, somado à falta de regularização fundiária, contribui para o surgimento e a permanência dos conflitos.

A ausência de políticas públicas estruturais voltadas à mediação dessas disputas e à garantia de direitos territoriais é apontada como um dos principais entraves para a redução dos conflitos no campo.

Mesmo fora do topo do ranking nacional, o Tocantins segue inserido no mapa dos conflitos agrários do Brasil, refletindo uma realidade que ainda desafia políticas públicas e a garantia de direitos no campo.

Deixe um comentário

Your email address will not be published.

Don't Miss