Por Daiane Silva, jornalista formada pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA)
Em um ano eleitoral marcado pela polarização política, discutir o papel das universidades brasileiras se torna ainda mais necessário. Nas redes sociais, professores são frequentemente acusados de doutrinação ideológica, especialmente quando abordam temas como democracia, desigualdade social, racismo, direitos humanos e a história política do país. Mas, afinal, o que significa doutrinar? E em que momento o ensino crítico passou a ser tratado como uma ameaça?
A palavra doutrinação está relacionada à transmissão de ideias, crenças ou princípios com a intenção de fazer com que alguém os aceite. No debate educacional, a acusação costuma aparecer quando um professor é apontado como alguém que tenta impor determinada visão de mundo aos estudantes. O problema é que nem toda abordagem crítica, opinião divergente ou discussão política representa doutrinação. Ensinar não é o mesmo que obrigar alguém a concordar.
A universidade é, por natureza, um espaço de produção de conhecimento, investigação, confronto de ideias e questionamento. Isso significa que o estudante não precisa concordar com tudo o que ouve em sala de aula. Pelo contrário: deve ter condições de perguntar, discordar, apresentar argumentos e rever as próprias posições quando encontra novas evidências.
Falo também a partir da minha experiência como estudante de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Ao longo da graduação, participei de discussões que me fizeram questionar conceitos, confrontar interpretações e compreender melhor a complexidade dos acontecimentos políticos e sociais. Em nenhum desses momentos o aprendizado dependia de aceitar uma ideia sem questionamento. O que importava era a capacidade de argumentar.
Em uma aula sobre antirracismo, por exemplo, discutimos ideias do pesquisador Muniz Sodré. Durante o debate, questionei aspectos da discussão sobre o racismo estrutural, especialmente o significado de estrutura e a maneira como esse conceito é empregado para explicar a realidade. Minha intenção era compreender melhor o argumento e explorar seus fundamentos. Essa experiência me mostrou que uma sala de aula precisa permitir perguntas e discordâncias, inclusive sobre conceitos importantes para o debate público. Questionar uma ideia não significa, por si só, rejeitar o conhecimento ou desrespeitar quem a apresenta.
Outra experiência aconteceu durante a disciplina de Crítica de Mídia, quando eu estava no terceiro semestre da graduação. Em uma discussão conduzida por um professor estrangeiro, muito inteligente e atento ao contexto político, surgiu a possibilidade de uma tentativa de golpe. Naquele momento, eu considerava que esse risco não poderia ser descartado diante dos sinais e dos antecedentes históricos. Nem todos os colegas compartilhavam da mesma avaliação.
Em 8 de janeiro de 2023, os ataques às sedes dos Três Poderes, em Brasília, e as investigações posteriores sobre a tentativa de golpe de Estado demonstraram que as preocupações com ameaças à democracia precisavam ser levadas a sério. Isso não significa que uma discussão em sala de aula tenha antecipado todos os acontecimentos ou comprovado cada interpretação feita naquele momento. Significa que analisar a conjuntura política, estudar precedentes históricos e considerar riscos são atividades legítimas do pensamento crítico. É justamente para desenvolver essa capacidade de análise que estudamos.
A experiência universitária também me ensinou que o conhecimento não se limita à sala de aula. Em novembro de 2022, ainda durante minha trajetória acadêmica, participei, como entrevistadora, de uma matéria publicada pelo Imperatriz Notícias com Xavier Jean Marie Plassat, conhecido como Frei Xavier Plassat, frade dominicano francês e membro da Comissão Pastoral da Terra. A entrevista abordou sua atuação na defesa dos trabalhadores rurais e no combate ao trabalho escravo.
Ao final da conversa, Plassat compartilhou uma reflexão atribuída ao papa Francisco: a responsabilidade de cada pessoa diante do outro e a importância de reconhecer o próximo como irmão ou irmã. Segundo a passagem registrada na entrevista, negar esse reconhecimento seria também negar a si mesmo como filho de Deus. Guardo essa reflexão porque ela ajuda a pensar sobre a importância de olhar para a realidade e para as experiências humanas antes de formar julgamentos definitivos.
A entrevista não era uma aula universitária, mas também fez parte de um processo de aprendizado. Como jornalista, precisei ouvir, formular perguntas e compreender uma realidade que envolve história, desigualdade, direitos humanos e relações de trabalho. Essa experiência reforçou, para mim, a importância de investigar antes de concluir e de buscar compreender os fatos para além das próprias convicções.
É por isso que me preocupa quando o termo “doutrinação” é utilizado de maneira genérica para desqualificar professores e universidades. Em vez de apresentar evidências de uma eventual imposição ideológica, parte do debate político transforma a própria discussão de determinados assuntos em prova de suposta doutrinação. Falar sobre democracia não é doutrinar. Estudar desigualdade não é doutrinar. Analisar decisões de um governo ou investigar uma ameaça às instituições também não é, automaticamente, doutrinar.
Isso não significa que professores estejam acima de críticas. Como qualquer profissional, podem cometer erros, apresentar interpretações frágeis ou agir de maneira inadequada. A liberdade acadêmica não elimina a responsabilidade de fundamentar afirmações, apresentar fontes e respeitar a pluralidade de ideias. Se houver uma acusação concreta de imposição ideológica, ela deve ser examinada com base em fatos, e não apenas na discordância de alguém com o conteúdo de uma aula.
A própria Constituição Federal estabelece, no artigo 206, a liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber, além do pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas. O artigo 207 também garante às universidades autonomia didático-científica. Esses princípios não são uma autorização para que qualquer pessoa ensine qualquer coisa sem critérios. São garantias para que o conhecimento possa ser produzido e debatido sem que uma única visão de mundo seja imposta como condição para aprender.
Em uma sociedade democrática, a universidade não deve funcionar como espaço de obediência intelectual. Seu papel é oferecer ferramentas para que os estudantes compreendam o mundo, examinem argumentos, reconheçam contradições e construam suas próprias conclusões com responsabilidade. Isso inclui a possibilidade de discordar do professor, assim como inclui a obrigação de sustentar uma discordância com argumentos.
No contexto eleitoral, em que informações falsas, disputas narrativas e acusações políticas circulam com velocidade, essa formação se torna ainda mais importante. Um cidadão capaz de contextualizar um acontecimento, verificar uma informação e reconhecer os interesses envolvidos em determinado discurso está mais preparado para participar da vida pública.
A universidade não precisa produzir estudantes que pensem todos da mesma maneira. Precisa formar pessoas capazes de pensar. E pensar, muitas vezes, significa discordar, investigar e mudar de opinião diante de novos fatos.
Antes de chamar um professor de doutrinador, portanto, é necessário compreender a diferença entre ensinar e impor, entre apresentar uma interpretação e proibir o questionamento. Uma universidade que permite perguntas difíceis não está necessariamente doutrinando. Pode estar fazendo exatamente aquilo para o qual existe: ensinando a pensar.