Inspirada no “gabinete do ódio”, estudante analisa vídeos que atacaram candidatos a prefeitura de Imperatriz nas eleições de 2024

WhatsApp Image 2026 05 31 at 13.00.44
Daiane da Conceição Silva com a banca avaliadora na UFMA Imperatriz/ Foto: Luciana Souza

A influência de estratégias digitais na política brasileira, especialmente aquelas associadas ao chamado “gabinete do ódio”, foi o ponto de partida da pesquisa desenvolvida pela estudante de Jornalismo Daiane da Conceição Silva, natural de Augustinópolis (TO). O estudo foi apresentado na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus Imperatriz, sob orientação da professora Dra. Regysane Botelho Cutrim, e investigou como essas práticas se manifestam em contextos locais a partir das eleições municipais de 2024.

O termo “gabinete do ódio” se popularizou durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro e passou a ser utilizado para descrever a atuação de grupos organizados na produção e disseminação de conteúdos digitais com o objetivo de influenciar a opinião pública. Entre as estratégias identificadas estão ataques a adversários políticos, jornalistas, instituições como o Supremo Tribunal Federal (STF) e ao próprio processo eleitoral, frequentemente por meio de desinformação, linguagem emocional e construção de narrativas negativas.

Embora amplamente associadas ao cenário nacional, a pesquisa parte da hipótese de que essas práticas também se fazem presentes em cidades de médio porte, como Imperatriz. A partir disso, a estudante analisou três vídeos publicados no YouTube durante o período eleitoral, selecionados com base no alcance e no potencial de engajamento entre eleitores locais.

Os conteúdos tinham como principal característica o ataque direto a candidatos, especialmente Josivaldo JP (PSD) e Rildo Amaral (PP), por meio de estratégias discursivas que buscavam gerar rejeição e descredibilização.

O primeiro vídeo, com apenas 48 segundos, exemplifica o uso da chamada “transferência de desgaste”. A gravação mostra o então prefeito Assis Ramos — que apresentava alto índice de desaprovação — em um restaurante, pedindo votos para Rildo Amaral e afirmando que poderiam “botar na conta do Rildo”. Segundo a análise, a estratégia consiste em associar o candidato a uma gestão impopular, transferindo a rejeição do gestor para o adversário político.

Além disso, o vídeo utiliza um enquadramento lateral e instável, sugerindo se tratar de um registro espontâneo, feito de forma “escondida” por um cidadão comum. No entanto, a pesquisa levanta a hipótese de encenação, caracterizando o material como uma peça de ataque político disfarçada de flagrante cotidiano.

O segundo vídeo foca na associação dos candidatos Josivaldo JP e Rildo Amaral a figuras da esquerda e ao que é chamado de “comunismo maranhense”. Ao utilizar expressões como “time da esquerda” e “figuras carimbadas do comunismo”, o conteúdo busca acionar sentimentos de medo e desconfiança em um eleitorado majoritariamente conservador.

A análise também identificou uma tentativa de legitimação do discurso por meio da sugestão de que a locução seria do marqueteiro Janderson Landim, aliado da candidata Mariana Carvalho, utilizando uma suposta “comparação de voz”. O objetivo seria reforçar a credibilidade da mensagem e deslegitimar os adversários, insinuando que Josivaldo JP romperia com seu eleitorado para favorecer um projeto político ideologicamente oposto.

Já o terceiro vídeo revela indícios da produção coordenada de ataques, ao apresentar prints de conversas privadas que sugerem a existência de uma estrutura organizada de disseminação de conteúdo. Entre os elementos identificados estão o uso de apelidos como “Cirilo” e “Rei do Camarote”, estratégia que, segundo a ciência política, contribui para a construção de estigmas e facilita a rejeição emocional dos alvos.

O ponto mais relevante, segundo a pesquisa, são as instruções explícitas de disseminação: “Manda pra algum amigo jogar em seus grupos, pra não parecer que veio de nós”. A orientação evidencia uma tática de difusão indireta, que busca dar aparência de espontaneidade ao conteúdo, dificultando o rastreamento da origem e favorecendo a circulação em redes privadas, como aplicativos de mensagens.

Para a autora, os resultados mostram que essas estratégias não são isoladas nem restritas aos grandes centros.

“Essa pesquisa é de suma importância não apenas para o campo da Comunicação, mas também para a Ciência Política, porque evidencia que práticas de ataques coordenados e manipulação da percepção pública não estão restritas às grandes capitais. Elas também se manifestam em cidades menores, como Imperatriz, mostrando que esse fenômeno já está interiorizado. O que a gente observa é que essas estratégias sempre existiram na política, mas as redes sociais potencializaram esse processo, ampliando o alcance e a velocidade com que esses conteúdos circulam”, afirma.

A pesquisadora também destaca o papel do público diante desse cenário:

“Diante disso, o papel do cidadão se torna ainda mais fundamental: é preciso desenvolver um olhar crítico, desconfiar de conteúdos que apelam excessivamente à emoção e buscar sempre compreender de que forma essas narrativas podem estar tentando influenciar a opinião pública.”

Em síntese, o estudo conclui que a manipulação observada em Imperatriz não se baseia apenas na disseminação de informações falsas, mas em uma estratégia mais ampla de gestão de afetos — como medo, indignação e rejeição — aliada ao uso estratégico das plataformas digitais para moldar a percepção pública.

Deixe um comentário

Your email address will not be published.

Don't Miss

Default

Araguaína (TO): Tribunal do Júri condena dupla por assassinato cometido dentro de residência

Dois homens foram condenados pela Justiça após o Tribunal do
53919410958 9f58bb2423 z

Show de Bruno & Marrone custará R$ 1,1 milhão aos cofres públicos de Axixá

Imagine uma cidade com pouco mais de 10 mil habitantes,