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Eu estava tentando escolher entre café com açúcar ou sem, quando ele puxou assunto…

— Café forte ajuda a pensar melhor — disse, com um sorriso leve, daqueles que não intimidam ninguém.

Olhei e reconheci.

Flávio Bolsonaro.

Não parecia apressado. Nem cercado. Só… ali.

— Depende do que a gente precisa pensar — respondi.

Ele riu, como quem gostou da resposta, e sentou.

A conversa começou simples. Clima, rotina, essas coisas que qualquer pessoa fala quando não quer entrar direto no assunto principal.

Mas entrou.

Sempre entra.

— O Brasil precisa de direção — ele disse, com tranquilidade.

Não foi num tom agressivo. Foi quase como uma opinião de quem está conversando, não discursando.

— E você acha que já encontrou essa direção? — perguntei.

Ele apoiou os braços na mesa.

— A gente precisa olhar pra fora também. Ver quem teve coragem de mudar.

— Tipo quem?

— Javier Milei.

Ele falou o nome com naturalidade.

Como quem cita uma referência.

Eu pensei na Argentina por um segundo. Nos números, nas mudanças rápidas, nas pessoas tentando acompanhar um país que parece correr mais do que elas conseguem.

— E você acha que esse caminho serve pra gente?

Ele não respondeu com certeza absoluta.

— É um exemplo — disse.

Exemplo.

Uma palavra segura.

Que não promete demais… mas também não explica muito.

— E aqui dentro? — continuei. — Economia, custo de vida, essas coisas mais práticas…

— Ajustar. Reduzir. Organizar melhor.

Ele falou com calma.

Sem pressa.

Como se aquelas palavras já bastassem.

E talvez, pra muita gente, bastem mesmo.

— E propostas novas? — perguntei.

Ele pareceu animar um pouco mais.

— Tem uma ideia importante pras mulheres.

— Qual?

— Um celular com uma inteligência artificial. O nome é Maria. Pra ajudar em situações de risco.

Dessa vez eu me inclinei um pouco mais.

— Como ela ajuda?

— Orienta, responde, dá suporte.

Balancei a cabeça, tentando acompanhar.

— E quando a situação não permite esperar?

Ele ficou em silêncio por um instante.

Não foi desconfortável.

Foi só… real.

— É uma ferramenta — disse.

Ferramenta.

Palavra correta.

Mas, naquele momento, pareceu pequena.

A conversa foi ficando mais leve depois disso.

Falamos de outras coisas, rimos de algo que já nem lembro mais.

Ele não era ríspido. Nem distante.

Pelo contrário.

Era fácil conversar com ele.

E talvez seja justamente isso que mais faz pensar.

Terminei meu café e levantei.

— Boa sorte — falei.

Ele agradeceu, ainda com aquele mesmo jeito tranquilo.

Saí dali com a sensação de que, às vezes, não é sobre quem a pessoa é…

mas sobre o tamanho das respostas que ela oferece pra problemas grandes demais.

Caros leitores,
esta é uma editoria de crônica jornalística produzida por Daiane Silva, jornalista, que busca olhar para o cotidiano, especialmente o político, de forma mais leve, humana e, quando necessário, satírica. A proposta é simples: transformar temas complexos em conversas possíveis, com opinião,
reflexão e uma pitada de ironia.

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